
Branca
O dia com pressa ia se impondo, as ruas acordando com os ruídos dos passos e as palavras ainda poucas e baixas.
Eu no meu resto de sono mal dormido e entre pequenos pesadelos e algumas imagens distorcidas,
você.
Tão nítida que tive medo. Até tossia, aquela costumeira tosse esganiçada. Por pouco que não te escutei dizer que era o resquício do seu único vício assumido. Sempre achei você um pouco covarde para os vícios, ou para assumi-los. Não sei.
Mas depois, a falta da sua tosse fez um silêncio tão insuportável, que não imagina.
Sua tosse era nosso diálogo íntimo.
Agora tudo tão demasiado concreto. Essas coisas todas duras, insensatas. Deviam inventar materiais moles para fazer as coisas no mundo. As pessoas tem um apreço ridículo pela matéria. Viver já é por demais sólido para mim.
Você estava de pé. Magra e esguia (claro que era você). Com as pontas dos dedos que pareciam desaparecer de afinar, aquela mão aguda, inglesa,
austera como a fotografia dela.
Não. não a conheci. Mas sei por certeza inquestionável que vocês se parecem. Aquela fotografia era a presença mais maciça que tive. Sempre de canto, silenciosa, beirando os movimentos da casa.
Você me olhava e tossia. Achei isso tão sem propósito que pensei que estivesse realmente ali..
(Que as coisas acabam eu nunca dei fé. Eu nunca tive crença e a descrença não ia ser uma.)
Foi você quem advertiu. Nessas constatações incomodas ancorou-se meu amor.
Não por à toa você tossia. Nada em você era dado ao acaso, rígida na disciplina de existir. Tudo tinha um propósito secreto. E Isso tornou-se meu denso segredo,
obtuso e real.
Tossir era seu tropeço, não era o cigarro. Você não fumava e a cigarrilha era decorativa. Desculpe, tinha que te dizer isso.
Foi só você quem acreditou. Você e o meu sonho nítido.
Porque lá fora, branquinha, lá fora mesmo,
a rua só insiste em ser utilidade.
( fotografia http://www1.fotolog.com/saraseaside)