segunda-feira, 31 de março de 2008



minha, quantas já te disse:
não contes anedotas à grande público,
esperando risadas escancaradas
mas insistes:
no riso obsceno do coletivo
se te ardes o peito,
não bebas a água,
engodo de água é saciar a tua sede,
que apenas se rendem em tua bexiga,
urinas amareladas.
gostas de te ver esvair em cores que teu corpo libera,
isso sei
pena que não formules o verde oceânico
que ver/teia o teu além mar,
apenas o ocreverde-musgo-marrom,
do teu excremento
és o que tu tens agora minha míscar,
te enganas de uma forma tão doce e lasciva,
que só compete a mim te desarticular.
eu, que primo pela angústia do teu sofrimento,
ao invés de permiti-la,
apenas seguir em falso riste
eu que te curvo, te tombo e te dobro,
para ver-ter-te humana e minha

porque és condicionalmente
e porque consentistes uma única vez
lembras?
pois me basta
não retrocedes!
não teime-tolices
apostes no sentido
em que todo sentido se des-faz
lá te re-articulas
lá te espero para te amá-la

transforma-te em mulher,
antes que te apodreças
chegada a hora de obedecer as tuas regras
pois quando desce a terra

é que o céu se con-verte o arco-íris,
que almejas em tuas cores.


terça-feira, 4 de março de 2008



olhava em volta com muita atenção, embora estivesse com aquele olhar bovino de vacadeitadaalheiaaomundo.
era um imenso globo brilhante, estatelado, vazio-e-negro.
de atravessar paredes, arvóres, carros e dimensões terceiras.
mesmo depois de casada e de sucessivos partos cesáreos o manteve como no primeiro dia em que a vi. era essa a mulher que carregava o mistério da indiferença no olhar. depois foi minha, e só se manteve intocável como uma virgem adolescente nesse único ponto. sem dúvida impenetrável.
iam brindar. ela chegou sem ser convidada e com um copo de whisky quebrado na ponta. fui eu quem chegou de manso para não tocá-la, porque era assustada como um bicho recém-disperto.
avisei: o brinco sem tarracha esta quase para cair.
ela levou a mão ao rosto e a mão esparramou-se como uma coisa que se joga.
fixou em mim aquele olhar de vaca e o fez pela segunda vez: o suficiente para um desafio.
se eu saisse dali ela sumiria para sempre. e aquela imagem tão humana, esparramada, me fez sentir o desejo mais vil que já senti.
o melhor deles. não me lembro de outro assim.
coloquei o gelo todo na boca e chupei até arder. movimentei as pernas e esbocei algo como dançar. esbocei só. danço como quem faz mímicas.
Ela não. ela dança como quem debocha da minha sisudez. Depois fez que entreabriu a boca e falou como quem sopra (de quando em quando, penso se isso realmente aconteceu ou se naquele momento já a amava):
- O que se destaca do meu corpo, cai.
com tal resignação que quase enlouqueci. porque sou assim: amo as resignadas. eu a amei e ela me designou.
desde assim, ficou muito acostumada a me fazer quês. atualmente é só o que nela gosto. além do olhar, claro! isso sustenta tudo. e nada mais.
naquele dia ninguém nos surpreendeu. só um biscui de mesa, dançarina de cancan e ceroulas rendadas. achei aquela decoração surpreendentemente cafona, só o nosso desajuste, tão premeditado era o mais verdadeiro.
do outro lado da sala, fora-de-cena, um senhor ajudava uma mulher a se levantar.
ainda em tempo ela reclamou do vestido tomara-que-caia.
(safada! fica comigo hoje?)
ela não respondeu, mas ficou.