domingo, 2 de dezembro de 2007

chegou muito calada e ficou vários tempos mirando mar. de início é o único que me lembro.
começou pouco e de vez. quando demos por fé ela já havia parado para olhar.
ficou semanas.
era só isso: em frente a janela ela observava, observava,
esquecíamos dela porque seus passos nem sua boca faziam sons.
quando bebeu água em vaso de flor, achamos estranho.
não sabíamos que ela não sabia onde era lugar de água.
ela só olhou. eu é que entendi: água não tem lugar.
e nem na mais livre e arejada imaginação aquilo cabia.
tanto de lirismo feriu nossa agressão.
nossa humanidade estava em questão e da forma mais extrema.
nos preocupávamos e ela não falava. nem uma palavra. nada.
gostava era de ver mar da janela, beber água de vaso e silêncio.
voz quando não era muito baixa, muito mesmo, ela tremilicava.
parecia haver um insondável nos ditos, muito mais que no alto mar.
como estava viva essa criatura?
ainda agora, depois de vê-lo, pensamos que não poderia empreender retorno
à árido sertão. era encontro que devia ser respeitado.
dúvidas eram demais. todos com medo da mulher do mar.
um dia ela me olhou muito fundo,
como se fosse com aqueles olhos negros de mar que ela ia me dizer.
chorou. tinha deságuado.
nos olhávamos assustados pois sabíamos que aquilo era algo.
mais o que, tal atrevimento nos escapava.
quando tive notícia, soube que ela tinha voltado,
chorava dia e noite e no sertão chovia como nunca.
a mulher era o lugar.
ando pasma!

sábado, 10 de novembro de 2007













Branca

O dia com pressa ia se impondo, as ruas acordando com os ruídos dos passos e as palavras ainda poucas e baixas.
Eu no meu resto de sono mal dormido e entre pequenos pesadelos e algumas imagens distorcidas,
você.
Tão nítida que tive medo. Até tossia, aquela costumeira tosse esganiçada. Por pouco que não te escutei dizer que era o resquício do seu único vício assumido. Sempre achei você um pouco covarde para os vícios, ou para assumi-los. Não sei.
Mas depois, a falta da sua tosse fez um silêncio tão insuportável, que não imagina.
Sua tosse era nosso diálogo íntimo.
Agora tudo tão demasiado concreto. Essas coisas todas duras, insensatas. Deviam inventar materiais moles para fazer as coisas no mundo. As pessoas tem um apreço ridículo pela matéria. Viver já é por demais sólido para mim.
Você estava de pé. Magra e esguia (claro que era você). Com as pontas dos dedos que pareciam desaparecer de afinar, aquela mão aguda, inglesa,
austera como a fotografia dela.
Não. não a conheci. Mas sei por certeza inquestionável que vocês se parecem. Aquela fotografia era a presença mais maciça que tive. Sempre de canto, silenciosa, beirando os movimentos da casa.
Você me olhava e tossia. Achei isso tão sem propósito que pensei que estivesse realmente ali..
(Que as coisas acabam eu nunca dei fé. Eu nunca tive crença e a descrença não ia ser uma.)
Foi você quem advertiu. Nessas constatações incomodas ancorou-se meu amor.
Não por à toa você tossia. Nada em você era dado ao acaso, rígida na disciplina de existir. Tudo tinha um propósito secreto. E Isso tornou-se meu denso segredo,
obtuso e real.
Tossir era seu tropeço, não era o cigarro. Você não fumava e a cigarrilha era decorativa. Desculpe, tinha que te dizer isso.
Foi só você quem acreditou. Você e o meu sonho nítido.
Porque lá fora, branquinha, lá fora mesmo,
a rua só insiste em ser utilidade.



( fotografia http://www1.fotolog.com/saraseaside)

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

fotografia: http://www.fotolog.com/saraseaside/
Mariinha
foi só quando vi nas suas mãos a sujeira da terra colorindo os cantos das unhas, mal cuidadas, disformes, mãos de criança em jardim. seu olhar pequeno, apertado, suplicante desemprealgo. como se eu fosse sei lá que tipo de santo, desses que você costuma a conversar, implorar para viver sem pecado e perdão pelo que não faz. foi só quando vi o seu deserto, a sua errância, a sua negligência, aquilo que você cismava não ser. quando vi que te desolava esse choro calado, miúdo e entrecortado. até assim choro ralo em ser seu desespero contido. esse seu comum conhecido.como se quisesse assumir a culpa do mundo, como se te pesasse nos ombros as dores ancestrais de tudo. foi só assim que pensei em te amar. Como não consigo te dizer, Miinha, que só te amo porque te falta algo que eu nunca poderei te dar?

Re/velações



Pau- Ferro
(Caesalpinia Ferrea)


Alegria de flores.
À revelia do nome
O Pau- Ferro,
floresce.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

literindo-se (ou derretendo palavras em vãos)



Entendo o que tentas me dizer

equilibrando-se em meio aos ruídos

que saem da tua boca

Quando foi que isto,

finalmente,

veio te marcar efeitos?

Rio de ti quando não estas

e disso não sabes

É quando jorras:

Des

fa

zem-

se

alegorias

.

É quando te sinto mais intenso

Acho-te tão alongado..

com as tuas milhas demoras

Assim, te faço risível,

embora não estejas acostumado a rir

Sei, te suponho

Te consomes nesta crença

E Nada se pode dizer pleno

É o único que te escapas

Esboças um semblante sincero

cada vez que tentas

Disso gosto,

teamo-te.

Quando ruborizas percebes,

que disse a-mais

Porque?

Quando Isto é tão e tudo

Já em ti, nada tem a dizer

Acontece:

Por um momento

breve de tão,

quase que negativo

Acredito que tu possas me dizer;

ipsiliteris

terilipsisi

ilipsisteri

sisterilipi

Na boca dela,

.

em

vão

.

Assim mesmo.

...............................................................

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

donde estabas, dulce?

Egon Schiele














olha, dulce

eu nunca que te disse,

que sabia por onde ia.

me seguir foi apenas

mais,

uma destas tuas idéias

estapafúrdias.

não saber onde eu ia

era menos,

uma das minhas.

a mais sensata,

se é o que você quer saber!

não quer?

tudo bem, não precisa ir assim.

viu, dulce?

dulce..


ando cada vez mais apressada, dulce.
(você ainda está aí?)

tenho constante impressão

que monologo sozinha.

e isso seria mais que o cúmulo

que se pode acumular

tanta redundância, redunda com a gente.

tú não gostas, sei.

e que vontade é essa então,
que te crava na garganta?

sempre pergunta tudo pra tinhá, dulce.

sempre, sempre num aiaiai.

você-aí toda sonsa, toda morna

faz de-lenga para tudo.

escuta:

sempre achei teu corpo-mole.

para uma amiga preocupada















Projeto Re(vi)vendo Êxodos

se expor

às vezes é a única forma

de não ser exposta

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Dos Multimeios Metalizados

obras no metrô abrem cratera no meio da rua


tomando gosto pela coisa esmaecida, gris, cinza/ chumbo
pela paisagem enevoada
os olhares de relance
à sensação de que tudo acontece onde somos levados pelas fumaças
dos carburadores dos carros congestionados,
aguardando o próximo acontecimento de ponta tecnológica.

no gosto da digitalização, àmáquínaúrbanoíde, i-pods, piercings e raps,
elegância high-tech do chemisier black-color
pela poesia concreta e brutal que fere o sentido reconstruindo o non sense
pelo anseio da conversa existencial com quem pouco se conhece
pela arte pixada no concreto. cimentada em meio ao suor,
dos retirantes nordestinos
trabalhadores mudos-mecânicos
da pá entrecortada e precisa dos tratores enferrujados.

dou meu gosto às paisagens futuristas,
aos espelhos azuis dos prédios que arranham e refletem céu
vendo beleza onde a realidade inspira apenas construções, vigas, ferros e destroços

pelo fim das poesias bucólicas, das fotografias de paisagens belas
pelo fim dos carneiros enrolados espirais, semelhante aos cabelos de anjo barroco
pelo fim dos anjos barrocos com suas caras de adultos assustados
pelo fim da vitalidade das flores do campo que ferem nossas vistas com tanta cor.

é na dor poética que também em mim se revela,
existência em qualquer canto, à qualquer preço
menos trajada em alberto caeirices e mais sob ótica mercadológica do alto executivo engravatado,
navegando em multimeios metalizados pela avenida paulista
nem menos poético, nem mais poético, nem poético, nem ético, nem,
a dura crueza surreal da existência lucrativa

solta o som andrógino da próxima rave pagã
des-codifique todo o som ultra-binário da modernidade
à altura dos meus ouvidos,
daqui soergo minha mão em brilhos platinados
simulacro das estrelas do (seucéu) nublado
refletidas nas poças da garoa,
da rua inteira, do dia inteiro.
e entre/vista pela pupila dilatada do seu olhar baixo e cansado
porque é lá que me encontro:
acordei mais solitária que uma paulistana.

sábado, 4 de agosto de 2007

L´isolation

Dans les escalier - L'isolation. Helano Stuckert


sábado, 28 de julho de 2007


Anna,
sei de sua imensa dor de existir

nessa comunhão
compartilho a hóstia branca e aveludada
da cristã contingência.
assim casta, resignei-me,
como você.
Em profana, bruxa ou louca
te digo aos brados:

bastei-me em nascer
para ser

para não-ser,
levo a vida inteira

Destraduzir



gustav klimt

pelas beiras e pelas metades
desubentenda-me,
é sutil e disso vivo
explícito te choca?
mas tem lá seu charme
es can ca ra do

segunda-feira, 16 de julho de 2007

a-lógica moral

www.fotolog.com/peppermint_/ (fotografia)


mesmo ao estagnar
sigo uma retidão
inconteste













quarta-feira, 4 de julho de 2007

pequena dinâmica de grupo



Alimah pede:

Apresentem-se.
Quem são vocês?

Ela baixo responde:
- Alguma coisa assim apraiando entre a crença e a heresia, inadvertida de que ambas são a mesma coisa.
- Me desculpe, mas isso não me parece muito adequado.
Ela sorri e pensa:
"Ainda bem, alguém percebeu..."

Alimah pergunta:
O que é apraiando?

E os outros vocês olham-se interrogados

domingo, 24 de junho de 2007

O que ela quer ver pela lente da minolta?

imagem google

Foi precursora de um sistema falido: implantar máquinas, modelos IJe-plus 27, descarga automática: mémoria pensante, sistema inteligente- menos trabalho mais lucro-
Empresas chilenas, alto escalão de funcionários. Slogão batido,
tinha lá seu efeito..
Optou.

Guardava alguns bons momentos na memória:

Quando viu um rapaz nú ser atropelado- Nunca tinha entendido aquilo direito. Desistiu e chamou de devaneio, logo após uma tentativa frustrada de análise com um cara meio barbudo que fumava charutos. Ela era alérgica a charutos e ele pensou ter encontrado mais uma histérica resistente à hipnose. Ele escreveu um artigo internacional e ganhou muito respeito no meio científico-
Ela de nada sabia, nem mesmo que o cara pelado era um bem-casado, saindo às pressas de uma despedida de solteiro;

Quando viu sua música predileta, até então desconhecida, ser exibida na televisão preta-e-branca num programa de auditório. Plenamente lamentável;

Quando viu o fundo do mar pela lente de uma câmera submarina- minolta MX5, see & sea, zoom automático, alcance macro- isso em algum documentário, ou na propaganda da câmera, o que era mais provável-
Depois comprou a câmera por um programa de tv com um número telefônico de fácil memorização.
Nunca usou a câmera e até hoje se lembra do número;

Um nome importante que ela se esquecia de lembrar- vinha sempre no exato momento em que a tarde virava noite- embora ela não soubesse que exato momento era esse;

A sensação aguda de conhecer alguém, que na realidade nunca existiu- ficava sempre com a impressão de que encontraria essa pessoa por alguma casualidade na rua: se abraçariam chorando e jornalistas do mundo todo iriam entrevistá-la, interessados naquela história tão absurda;
Enfim seu nome ficaria gravado para a posteridade.
E os tecidos, as cores, as texturas, que vinham sempre antes de adormecer- muitos deles, expostos sobre a mesa, recheados de murmurinhos femininos. Parecia que eram os próprios tecidos que murmuravam - Isso lhe dava uma calma libertadora.
Era seu refúgio secreto, a loja turca.

Ah claro! sua primeira tentativa de se rebelar contra o sistema, contra o trabalho, contra qualquer coisa. Isso quando já se encontrava acuada, deprimida e vazia:
Qual sua opinião sobre o lucro geracional pós moderno, que coisifica e mortifica o homem, implantando máquinas informatizadas, eliminando a necessidade da mão de obra, o que gera desemprego, falta de renda e miséria?

- Que sei eu disso, pôrra!

Ela sentia um orgulho intraduzível quando contava essa história. Bastava alguém a fazer se sentir inferior, menosprezá-la, para ela contar seu feito memorável. Às vezes acrescentava algumas pequenas mentiras para dar uma ênfase maior. E esse foi o único momento que amou verdadeiramente quem era.

sexta-feira, 8 de junho de 2007

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Abóboda Bureaux

http://www.fotolog.com/antiques/

como
loucas.
as quero
como louças!

empanadas
abalaustrando-se
no lustre

em plena
abóboda
boreal

em cena
só realidades

candidatas
des-váirias
mentem

a
se prontificar

quarta-feira, 16 de maio de 2007

domingo, 13 de maio de 2007

enquanto não vinha a marizé

http://www.fotolog.com/all_photos.html?user=antiques



Se marizé quisesse
que viesse de rodinha
descer carrinhos de rolemãs
e jogar ladeiras abaixo,
descabelas contra o vento
Coisa de maricas mulherzinhas
essas ladeirinhas.

Enquanto ela não vinha
eu roubava romã
na casa de alguma velha branca e gorda,
era condição única
e disso resultava:
romã rosinha, rosia
roseira daninha da vizinha

Em bolinhas de gude?
Sempre dei fim
e fui Rei!

Enquanto não vinha a marizé
corria riscos enormemente
Aquilo sim! riscos que nunca
enquanto tenho me feito de viva
corri.

De morta?
viva, morta.

Enquanto não vinha a marizé
eu tinha pouca coêrencia
uma coisa podia se chamar qualquer coisa
e qualquer coisa a coisa.

Buscava um ser medonho e ofegante
de nariz grande
e de nariz grande.

Chulé era mais fedido:
se o pé estava abrido
E tudo acabava em céu escuro
obrigação de esperar novo dia

As palavras tinha cheiros e sons
coloridas de amarelorosa
e sempre achei essa junção:
cor dos sonhos

As letrinhas todas minúsculas
eram mais criancinhas que as outras

O nome: era maria josé,
tão bom de chamar, implicava no alheio
Alegria fazia a festa
na ira estampada do rosto.

Já hoje tenho em mim tudo aquilo que foi dito
sei que aquilo se chama isso
e isso é aquilo
assim, fixamente. coisa mais boba que já vi.

Invenção sem criatividade nenhuma:
mais dá para repetição.

Agora eu?
coesão, quase que toda
Mas metafóricamente me escapo
iludindo alusões da lógica
e me recuso obstinadamente!
a parecer mais grande do que sou.

É que a marizé?
ainda nem apareceu por aqui
paciência

.

.



(para samantha, minha marizé e todas nossas pequenas tolices de infância)

terça-feira, 8 de maio de 2007

sábado, 5 de maio de 2007

recato

teu recato,
ângela:
é a forma mais contundente,
que a tua obscenidade
ocultou ao mostrar-se..

quinta-feira, 3 de maio de 2007

filha da noite

pasea de dia que la noche es mia. (http://www.fotolog.com/malditanita/)


aguardo querida,
a dignidade
do teu silêncio
que tanto mais agride
quanto menos intenciona


recolha essas tâmaras jogadas
não quero mais ouvir histórias
nem ouvir
gosto mesmo é do teu segredo
aquele que me contas
quando não me dizes


não embarasses a minha vista
com mais palavras
quero apenas lucidez
por companhia
e recolha essas tâmaras.


conte-me histórias
mil e uma
a cada dia
não apenas digas
nem repitas

Invente!


porque é o silêncio
teu e único
que engendra a moralidade
de todo um mundo
me faz querer
existir,
apenas para ouvir-te calar


ao teu lado, confesso:
consigo ser,
verdadeiramente só
e sei que aqui posso
pedir que tu faças,
sem que seja eu, pedinte
e sem que sejas tu,
farsante

quinta-feira, 26 de abril de 2007

eufemista

(Solo a veces es divertido que las cosas estén del revés), http://www.fotolog.com/saraseaside/


mão de
sobras,
em dedo aponta:
alguma coisa exe/cessou demasias
menos um valioso
de um mui caro caluniador
a mais me infarta,
de árida à encharcada
em repleta fica nada
peco sem desejo
pelo mero imperativo
de matar,
isso que tu chamas:
tempo
inutilidades?
coleciono todas
ou acaso pensas
que perco tempo à toa?

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Da sua, e da minha, repetição..

Não sou eu quem repete essa história, essa história é que adora uma repetição, uma repetição, uma repetição. (Chico Buarque)


Lembra?
Quando você me dizia que tudo era cinza, as pessoas não valiam a pena,
tudo era decadente e gris?
Olhávamos as gentes, nas máscaras que supúnhamos, daquelas que sempre caem, e ríamos longamente.. você, eu e o prazer de contemplar mortais.
Como se pudéssemos ter a certeza de que somos mais, melhores e sem embustes.
Você esperava o meu silêncio, que era abissal e nunca existiu. Aí cortávamos as pétalas das flores e fazíamos disso um choro. Para ver se bem e se mal.
Era tanta tolice, não era Pedro?
Nem sabíamos o que era o paradoxo. Só a burra dualidade de tudo.
Éramos roteiro de cinema americano, sessão da tarde.
Tediosos e insolentes.
Mas não qualquer tediosidade, era uma que prometia um certo conteúdo.
Que nunca encontrei. Você encontrou?
Ah! Não existe o conteúdo, viu? Fiz questão de verificar a gramática,
o último tratado das línguas portuguesas, assinadas por
Portugal-brasil-angola-são-tomé-e-princípe
e vi que esse conteúdo é uma coisa assim incrivelmente chata.
Mas eu ria tanto de você, da gente, ria de mim;
Eu era absolutamente risível. Agora então:
Falo pouco, parco e mal.
Quem é que vai me ensinar a falar, Pedro?
Eu, muda e analfabeta?
Lembra da tristeza, a afetação do fim de tarde, o medo das sombras?
Apenas mais uma cena, como tantas outras.
isso já dizia aquele poeta. Quem era mesmo? você se lembra?
Máscaras são inevitáveis. E isso simplesmente assim,
foi libertador.
Acredita? Simples assim.
Foi preciso sentir o peso da palavra.
Agora te digo, a palavra não é só o ruído.
Foi legal isso das folhas caídas na praça,
a fugacidade do nosso tempo
a sua e a minha juventude tão autenticamente estúpidas.
As causas de causa nenhuma.
Da armação dos óculos roxo que tirava o peso da sua austeridade,
até dá saudade.
Você ficou ali para mim, Pedro. Em pé, na praça, de óculos roxo.
Ainda tomo café e leio ao mesmo tempo;
Mas agora mesmo fiz coisa muito melhor,
liguei o rádio e escutei música:
"me sube la bilirrubina... me sube la bilirru.. quando yo te miro y no me miras"
Lembra dessa música que você achou sem sentido? Você ficou tão inconformado que eu só tive por saída dar boas risadas.
Eu dancei tanto que los sapatitos de muñeca,
que você me deu amaciaram de vez.
Desarticular, Pedro! Eis a palavra da vez!
Depois canto um pouco de Billie Holiday,
meio gasguita e sem graça,
para voltar a gravidade, à mínima parte dela que tento preservar.
E para você poder me odiar: voltei a treinar aulas de canto.
Canções bregas italianas e bregas francesas,
ne me quitte pas, ne me quitte pas.
Amo-te,
Pedro!
Porque você acredita em coisas que eu gostaria de acreditar.
Porque você consegue se lembrar das coisas que eu já esqueci.
Porque você consegue se esquecer das coisas que eu teimo em lembrar.
Daqui não retrocedo nem para tomar impulso
Você segue fazendo aquele seu estilinho retrô?
Eu também, mais atual que nunca..

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Proposta 1


http://www.fotolog.com/antiques/ (fotografia)


pincelando pulverizados
de tudo um cado.
um lado-alado.
chego a mais redundante formulação:
se meu corpo me aprisiona, e isso já de velho é sabido.
sou cor
se me identifico com ele ao teu olhar vazio:
sou som, luz, ar.
quer mais?
tem!
mas por favor: não me olhe como se eu fosse Isso, ou só.
quem te deu garantias de que eu era a carne?

segunda-feira, 26 de março de 2007




solo estoy totalmente desnuda

cuando no tengo mas nada que decirte

quinta-feira, 22 de março de 2007

no
me
veo
en
ningún
espejo

para quê mesmo?



- lú, o Manuel de Barros é um escritor que se expressa como criança.
- O que é expressa?
- Que fala, tenta se fazer entender usando uma linguagem infantil, para ser mais simples.
- O livro é para criança?
- Não é exatamente para criança, mas pode ser lido por uma criança.
-Eu não entendi nada. Não entendi o que significa ser bocó, ele encontrou tanta coisa no dicionário. Era coisa boa ou era coisa ruim?
-As vezes tem coisa que não é para entender mesmo.
-Então para que ele tenta se fazer entender?
-...
- Eu me expremo várias vezes como criança. Quer ver?
- Então fala.
Helicopetro,
Minhas tranças estão desmaiadas.
-Posso por no meu blog isso, lú?
-Pra quê?

e não me perguntou o que era um blog


http://www.tanto.com.br/manoeldebarros.htm



amor



- Muito bem. Então comece você!Agora vou avisando: nada de retórica! Essa petulância hereditária. Essa cara de comportada, ar de quem não sabe o que esta acontecendo, coques no cabelo. Cara de quem entende álgebra.
Para o inferno os teus modos! Esparrame essa tua retórica. 


Ele contém um certo sorriso, iria ser demais cínico. Não agora.

- Esparramar retórica? Quê isso, meu filho?
- E sem isso de filho! Essa coisa incestuosa ridícula.

-Coques no cabelo? Você acaso esta doido? Coisa sem nexo, conversa de doidos, esparramar retórica. Às vezes acho que você tem uma certa insanidade que não é normal. Juro!

-Sabe o que é: quero largar um foda-se na retórica. Conversa baixa, saca? Preço de zona.
Se ainda tivesse aquele arremedo revolucionário, saias indianas, aquilo tudo de incensos fedendo a casa. Você saberia o que fazer! Agora o que te sobrou? Essa petulância inadequada. Ênfase... essa ênfase burra em conversas tolas. Pessoa enfática. Inutilidade doméstica! Professora do ginasial.

Ela escuta sem se afetar.
-Reassume a sua cara de lady, donzelisse acuada, Estou farto.
-Acha mesmo que me tornei isso? Agora falta dizer que sou louca. Sou histérica. Sou qualquer coisa. Sou isso, não sou aquilo, não posso ser.
 (silencio) 
- Afinal , ela continua. Porque se casou comigo? Você fica aí, esbravejando obscenidades. Não tenho mais saias, não fedo incensos e não quero ficar escrava de ser quem você fantasia.


Ele não sabia mais o que fazer. Ela não sabia.

O que dizer? Não pediam o divórcio. Não sabiam porque pedir. Motivo?
Ela não usa saias, não fede. Usa coques e fala pausadamente e aquilo o agredia, ardia como um tapa na cara. Aquela mão gesticulativa, pausa para a respiração. Afinal, o que era isso? Uma mulher ou um curso rápido de trigonometria?

Ele pensou em Arthur, na bebedeira toda. Bares sem destino. Meninas e saias se preocupavam em insinuar, se esforçavam para obter olhares. Os dele? De tao distraido  assustou-se com o grito:
- Acho que te faltam filhos! Você sempre se preocupa demais com tudo. Te falta preocupação concentrada.
- E isso desde quando é filho? Cada coisa.

Ele já estava cansado de falar. Além do que a situação da conversa piorava. Era sempre assim:
daqui a pouco iriam emudecer, olhos fixos e estagnados, atenção em outra coisa. Mas agora mais essa.
Pensava em Arthur. Deveria estar com os filhos do segundo casamento. Podia mesmo ouvi-lo dizer: Não se encontram os filhos do primeiro casamento com os do segundo: “em hipótese nenhuma!”, ele costumava dizer.

Depois reparou nela:
Cabelos desgrenhados, olhos marejados, um muxoxo infantil. Estava cômica. Chegou a sentir um pouco de culpa. Afinal, ela se esforçava algumas vezes, tentava parecer o que não era. Era isso que ele queria?
Nariz vermelho, arrebitado, outrora furavam o ar, tao ligeira.
Gostava daquilo e o nariz ainda era o mesmo.
Ele riu. Ela o olhou. Não entendeu, mas por alguma suposição também riu.
Ele ligou a televisão: qualquer coisa rápida e colorida.
Ela virou-se de lado e tentou dormir. Amanhã era bem cedo, provas para entregar.
Ele a observou. Olhou o nariz, narizinho... E pensou nos filhos. 

segunda-feira, 12 de março de 2007

Be Boop!


minha mira é doce e bela
esparrama delicadezas pelo ar
pinduricalhos indianos, tilitam
quase nada
te amo é plural
criança deslumbrada pela mãe arrumada.
festa de natal
para casamento indiano, mira nair http://www.mirabaifilms.com/