Era sempre uma invenção diária, dolorida, arrancada de algo que pudesse ser inéditoe sempre era,
Assim ela conseguia encontrar um sentido para si. Como se ao abrir uma torneira ela pudesse se verter em água, e como se água vinda de um objeto metálido, encanado, destinado à ela, fosse um autêntico milagre. E nunca era a mesma água, nem ela era sempre a mesma. Tudo acontecia em um encontro que não se repetia.
Existir de pequenos milagres não era bom, era apenas o inevitável de sua saída intima. Se pudesse escolher, escolhia, mas não havia escolha (ou havia?) Sim, seria mais digno e qualquer coisa mais humana.
Ligar a luz de casa era ver o fogo contido, represado, que se presentificada numa autêntica iluminação. Queria ser menos, olhar as coisas com menos clareza, de forma menos límpida, de jeito mais água represada e fogo elétrico, mas coisas teimavam em ser únicas e pediam contemplação. Depois disso aceitava existir, por vezes resignada, cansada, comovida, terna. Mas o desassosego era sempre um uivo gelado na madrugada das beiras dos rios, trazendo consigo aquele ar úmido- imaginação- Como se pudesse prenunciar sua condição tão fugaz e leve como ar.
Era inevitável: dúvida do que seria feito de si, do que era si e do sentido que ela pisoteava.
Foi quando um dia desses, porque qualquer dia importa muito e pouco, que ela vestiu um vestidinho branco, de laço amarrado no ombro esquerdo, acendeu seu cigarro e foi para o quintal dar uma espiada no mundo. O mundo também a espiou. Ela ficou feliz em estar ali, em comungar as coisas daquele instante e apreendeu um sentido inapreensível. A matilha foi-se embora e ela descobriu que podia fazer pontes: entre os homens e a sua estupefação de viver. Planejou projetos e refez-se,
ela era água corrente e o fogo do primeiro raio que os homens das cavernas olharam assustados.
empalideceu, corou e voltou a escrever,
tudo tem seu começo, ela tinha seu sopro vital,
e para fazer algo ela estava destinada. Todos.