terça-feira, 24 de novembro de 2009

Fato Verídico


lua de tarsila do amaral


"Fogo,luz, dia, a quinzena luminosa (a lua crescente), os seis meses no solstício norte, conhecendo a Brahman, a Brahman vão." Bhagavad-Gita


Olhou fixamente um objeto brilhando ao sol. De presságios foi tomada por um grande e breve arrepio. Entendeu um diálogo entre luz -luz refletida, luz refletida - luz.
Só assim saberia dizer que algo ali havia se comunicado.
Ela presenciava em silêncio. Alongou a respiração para não se fazer presente: havia uma redução tão fundamental quanto plena ali, na qual não queria interferir, só estar de corpo presente. Mas era corpo? Era.

- Eram luzes as luzes dialogando à luz do dia?

E por alguma razão a pergunta não lhe pareceu óbvia.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Imagem: Érika Hofmann


Na longitude cortada
se aprende depressa a apreciar
a inquietude dos teus movimentos trêmulos
Mesmo que os afoitos borrões impressionistas
se dêem pouco com os arredios progressos das tuas ciências
Bem sabida a engenharia que te fez de ferro
ou jamais suportaria atravessar por dentro
tantas paisagens
E em hora a mulher te deu janelas,
tolhendo a tua coisa maciça
em luz.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Gilda

Gilda tem um olhar manso
tão manso que os olhos fecham de preguiça
, como certos gatos que lentamente dormem.
Nos olhos esbugalhados da cara larga
nota-se um quê de resignação
ou seria cansaço?
Gilda é boa e redonda.

Tem três filhos adolescentes e uma cozinha.
Me pede que as encomendas sejam feitas com dois dias de antecedência
Ela é calma e não se afoba.
Todos sabem de suas exigências,
e a recomendam pelo seu capricho-e-zelo
A cozinha é bem limpinha e chama-se Cozinha da Gilda
porque Gilda é obvia.
Consta em seu cardápio:
Bolo Luiz Felipe
Mini Docinhos de abóbora
Tapioca de forno
Bolo de Aniversário (P,M,G e GG)
No mínimo trinta caranguejos a 3,00 reais cada.

Gilda tem nome de artista de hollywood
mas consegue ser um acaso a beira mar.
Dela ninguém tira nada que não queira realmente dar
Foi o que me disse.
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Gilda has a tamed look
so tamed that sometimes the eyes close of laziness
As certain cats that sleep slowly.

In the wide eyes on her face

can be note a bit of resignation

Or would be tired?
Gilda is good and round.
And has three teenage children
She explains that orders only can be made two days in advance
She is calm and not get flustered
Everybody knows her requirements
and recommend her for all whim-and-zeal stuff.
The kitchen is quite clean and well called Gilda's Kitchen
just because Gilda is plain
Listed on her menu:

Luiz Felipe cake
sweet pumpkin

tapiocas made in the oven
Birthday's cake (S. M and large)
At least thirty crabs to 3.00 reais each

Gilda has a hollywood name.
But she manage to be a random in the seaside.

From her anybody takes nothing if she really doesn't want to give
It is what she always says.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Glass Love

Aninha



Dêxe de perrêi

que eu vô cuidá

de chorar bem muito

e fazer um minimar

pucê morrer fogado.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

cama de sara

Era sempre uma invenção diária, dolorida, arrancada de algo que pudesse ser inédito
e sempre era,
Assim ela conseguia encontrar um sentido para si. Como se ao abrir uma torneira ela pudesse se verter em água, e como se água vinda de um objeto metálido, encanado, destinado à ela, fosse um autêntico milagre. E nunca era a mesma água, nem ela era sempre a mesma. Tudo acontecia em um encontro que não se repetia.
Existir de pequenos milagres não era bom, era apenas o inevitável de sua saída intima. Se pudesse escolher, escolhia, mas não havia escolha (ou havia?) Sim, seria mais digno e qualquer coisa mais humana.
Ligar a luz de casa era ver o fogo contido, represado, que se presentificada numa autêntica iluminação. Queria ser menos, olhar as coisas com menos clareza, de forma menos límpida, de jeito mais água represada e fogo elétrico, mas coisas teimavam em ser únicas e pediam contemplação. Depois disso aceitava existir, por vezes resignada, cansada, comovida, terna. Mas o desassosego era sempre um uivo gelado na madrugada das beiras dos rios, trazendo consigo aquele ar úmido- imaginação- Como se pudesse prenunciar sua condição tão fugaz e leve como ar.
Era inevitável: dúvida do que seria feito de si, do que era si e do sentido que ela pisoteava.
Foi quando um dia desses, porque qualquer dia importa muito e pouco, que ela vestiu um vestidinho branco, de laço amarrado no ombro esquerdo, acendeu seu cigarro e foi para o quintal dar uma espiada no mundo. O mundo também a espiou. Ela ficou feliz em estar ali, em comungar as coisas daquele instante e apreendeu um sentido inapreensível. A matilha foi-se embora e ela descobriu que podia fazer pontes: entre os homens e a sua estupefação de viver. Planejou projetos e refez-se,
ela era água corrente e o fogo do primeiro raio que os homens das cavernas olharam assustados.
empalideceu, corou e voltou a escrever,
tudo tem seu começo, ela tinha seu sopro vital,
e para fazer algo ela estava destinada. Todos.