quinta-feira, 22 de março de 2007

amor



- Muito bem. Então comece você!Agora vou avisando: nada de retórica! Essa petulância hereditária. Essa cara de comportada, ar de quem não sabe o que esta acontecendo, coques no cabelo. Cara de quem entende álgebra.
Para o inferno os teus modos! Esparrame essa tua retórica. 


Ele contém um certo sorriso, iria ser demais cínico. Não agora.

- Esparramar retórica? Quê isso, meu filho?
- E sem isso de filho! Essa coisa incestuosa ridícula.

-Coques no cabelo? Você acaso esta doido? Coisa sem nexo, conversa de doidos, esparramar retórica. Às vezes acho que você tem uma certa insanidade que não é normal. Juro!

-Sabe o que é: quero largar um foda-se na retórica. Conversa baixa, saca? Preço de zona.
Se ainda tivesse aquele arremedo revolucionário, saias indianas, aquilo tudo de incensos fedendo a casa. Você saberia o que fazer! Agora o que te sobrou? Essa petulância inadequada. Ênfase... essa ênfase burra em conversas tolas. Pessoa enfática. Inutilidade doméstica! Professora do ginasial.

Ela escuta sem se afetar.
-Reassume a sua cara de lady, donzelisse acuada, Estou farto.
-Acha mesmo que me tornei isso? Agora falta dizer que sou louca. Sou histérica. Sou qualquer coisa. Sou isso, não sou aquilo, não posso ser.
 (silencio) 
- Afinal , ela continua. Porque se casou comigo? Você fica aí, esbravejando obscenidades. Não tenho mais saias, não fedo incensos e não quero ficar escrava de ser quem você fantasia.


Ele não sabia mais o que fazer. Ela não sabia.

O que dizer? Não pediam o divórcio. Não sabiam porque pedir. Motivo?
Ela não usa saias, não fede. Usa coques e fala pausadamente e aquilo o agredia, ardia como um tapa na cara. Aquela mão gesticulativa, pausa para a respiração. Afinal, o que era isso? Uma mulher ou um curso rápido de trigonometria?

Ele pensou em Arthur, na bebedeira toda. Bares sem destino. Meninas e saias se preocupavam em insinuar, se esforçavam para obter olhares. Os dele? De tao distraido  assustou-se com o grito:
- Acho que te faltam filhos! Você sempre se preocupa demais com tudo. Te falta preocupação concentrada.
- E isso desde quando é filho? Cada coisa.

Ele já estava cansado de falar. Além do que a situação da conversa piorava. Era sempre assim:
daqui a pouco iriam emudecer, olhos fixos e estagnados, atenção em outra coisa. Mas agora mais essa.
Pensava em Arthur. Deveria estar com os filhos do segundo casamento. Podia mesmo ouvi-lo dizer: Não se encontram os filhos do primeiro casamento com os do segundo: “em hipótese nenhuma!”, ele costumava dizer.

Depois reparou nela:
Cabelos desgrenhados, olhos marejados, um muxoxo infantil. Estava cômica. Chegou a sentir um pouco de culpa. Afinal, ela se esforçava algumas vezes, tentava parecer o que não era. Era isso que ele queria?
Nariz vermelho, arrebitado, outrora furavam o ar, tao ligeira.
Gostava daquilo e o nariz ainda era o mesmo.
Ele riu. Ela o olhou. Não entendeu, mas por alguma suposição também riu.
Ele ligou a televisão: qualquer coisa rápida e colorida.
Ela virou-se de lado e tentou dormir. Amanhã era bem cedo, provas para entregar.
Ele a observou. Olhou o nariz, narizinho... E pensou nos filhos. 

Nenhum comentário: