segunda-feira, 16 de abril de 2007

Da sua, e da minha, repetição..

Não sou eu quem repete essa história, essa história é que adora uma repetição, uma repetição, uma repetição. (Chico Buarque)


Lembra?
Quando você me dizia que tudo era cinza, as pessoas não valiam a pena,
tudo era decadente e gris?
Olhávamos as gentes, nas máscaras que supúnhamos, daquelas que sempre caem, e ríamos longamente.. você, eu e o prazer de contemplar mortais.
Como se pudéssemos ter a certeza de que somos mais, melhores e sem embustes.
Você esperava o meu silêncio, que era abissal e nunca existiu. Aí cortávamos as pétalas das flores e fazíamos disso um choro. Para ver se bem e se mal.
Era tanta tolice, não era Pedro?
Nem sabíamos o que era o paradoxo. Só a burra dualidade de tudo.
Éramos roteiro de cinema americano, sessão da tarde.
Tediosos e insolentes.
Mas não qualquer tediosidade, era uma que prometia um certo conteúdo.
Que nunca encontrei. Você encontrou?
Ah! Não existe o conteúdo, viu? Fiz questão de verificar a gramática,
o último tratado das línguas portuguesas, assinadas por
Portugal-brasil-angola-são-tomé-e-princípe
e vi que esse conteúdo é uma coisa assim incrivelmente chata.
Mas eu ria tanto de você, da gente, ria de mim;
Eu era absolutamente risível. Agora então:
Falo pouco, parco e mal.
Quem é que vai me ensinar a falar, Pedro?
Eu, muda e analfabeta?
Lembra da tristeza, a afetação do fim de tarde, o medo das sombras?
Apenas mais uma cena, como tantas outras.
isso já dizia aquele poeta. Quem era mesmo? você se lembra?
Máscaras são inevitáveis. E isso simplesmente assim,
foi libertador.
Acredita? Simples assim.
Foi preciso sentir o peso da palavra.
Agora te digo, a palavra não é só o ruído.
Foi legal isso das folhas caídas na praça,
a fugacidade do nosso tempo
a sua e a minha juventude tão autenticamente estúpidas.
As causas de causa nenhuma.
Da armação dos óculos roxo que tirava o peso da sua austeridade,
até dá saudade.
Você ficou ali para mim, Pedro. Em pé, na praça, de óculos roxo.
Ainda tomo café e leio ao mesmo tempo;
Mas agora mesmo fiz coisa muito melhor,
liguei o rádio e escutei música:
"me sube la bilirrubina... me sube la bilirru.. quando yo te miro y no me miras"
Lembra dessa música que você achou sem sentido? Você ficou tão inconformado que eu só tive por saída dar boas risadas.
Eu dancei tanto que los sapatitos de muñeca,
que você me deu amaciaram de vez.
Desarticular, Pedro! Eis a palavra da vez!
Depois canto um pouco de Billie Holiday,
meio gasguita e sem graça,
para voltar a gravidade, à mínima parte dela que tento preservar.
E para você poder me odiar: voltei a treinar aulas de canto.
Canções bregas italianas e bregas francesas,
ne me quitte pas, ne me quitte pas.
Amo-te,
Pedro!
Porque você acredita em coisas que eu gostaria de acreditar.
Porque você consegue se lembrar das coisas que eu já esqueci.
Porque você consegue se esquecer das coisas que eu teimo em lembrar.
Daqui não retrocedo nem para tomar impulso
Você segue fazendo aquele seu estilinho retrô?
Eu também, mais atual que nunca..

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