segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

cama de sara

Era sempre uma invenção diária, dolorida, arrancada de algo que pudesse ser inédito
e sempre era,
Assim ela conseguia encontrar um sentido para si. Como se ao abrir uma torneira ela pudesse se verter em água, e como se água vinda de um objeto metálido, encanado, destinado à ela, fosse um autêntico milagre. E nunca era a mesma água, nem ela era sempre a mesma. Tudo acontecia em um encontro que não se repetia.
Existir de pequenos milagres não era bom, era apenas o inevitável de sua saída intima. Se pudesse escolher, escolhia, mas não havia escolha (ou havia?) Sim, seria mais digno e qualquer coisa mais humana.
Ligar a luz de casa era ver o fogo contido, represado, que se presentificada numa autêntica iluminação. Queria ser menos, olhar as coisas com menos clareza, de forma menos límpida, de jeito mais água represada e fogo elétrico, mas coisas teimavam em ser únicas e pediam contemplação. Depois disso aceitava existir, por vezes resignada, cansada, comovida, terna. Mas o desassosego era sempre um uivo gelado na madrugada das beiras dos rios, trazendo consigo aquele ar úmido- imaginação- Como se pudesse prenunciar sua condição tão fugaz e leve como ar.
Era inevitável: dúvida do que seria feito de si, do que era si e do sentido que ela pisoteava.
Foi quando um dia desses, porque qualquer dia importa muito e pouco, que ela vestiu um vestidinho branco, de laço amarrado no ombro esquerdo, acendeu seu cigarro e foi para o quintal dar uma espiada no mundo. O mundo também a espiou. Ela ficou feliz em estar ali, em comungar as coisas daquele instante e apreendeu um sentido inapreensível. A matilha foi-se embora e ela descobriu que podia fazer pontes: entre os homens e a sua estupefação de viver. Planejou projetos e refez-se,
ela era água corrente e o fogo do primeiro raio que os homens das cavernas olharam assustados.
empalideceu, corou e voltou a escrever,
tudo tem seu começo, ela tinha seu sopro vital,
e para fazer algo ela estava destinada. Todos.

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